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Ivete Nenflidio

Calendas de Março

Calendas de Março

2020

Calendas de Março, de Ivete Nenflidio

por Aione Simões

Em meio ao isolamento social provocado pela pandemia do Covid-19, uma mulher encontra o refúgio temporário de seus temores em um diário guardado no fundo de um baú.  Ao iniciar a leitura, Helena se vê viajando pelo tempo: ela não apenas relembra os horrores da ditadura militar brasileira, que permeiam suas lembranças de infância, como, também, descobre uma poderosa história de amor e resistência.

Assim como Helena, viajei pelas páginas de Calendas de Março em uma leitura na qual encontrei diversos paralelos com a realidade que me cerca. Ivete Nenflidio transita entre o interno e o externo, revelando os temores e angústias da protagonista em meio à quarentena, bem como as reflexões que ela estabelece entre o cenário político brasileiro atual e o dos anos de ditadura.

A angústia e a solidão provocadas pelo isolamento social são intensificadas pelas preocupações em relação às decisões do chefe de Estado do país e do posicionamento de seus apoiadores — sentimentos esses compartilhados por parcela significativa da população brasileira, incluindo a mim. Dessa maneira, não foi difícil me identificar com Helena, mesmo que muitos anos de vida nos separe em diferentes faixas etárias.

Ressaltando a solidão do isolamento, o livro não traz diálogos, apenas a narrativa em terceira pessoa. Sendo onisciente, ela se aproxima bastante da mente e emoções de Helena, transmitindo suas impressões para o leitor com sensibilidade e um toque poético. E, com habilidade, a autora consegue alternar a narrativa entre aquela de Helena e a do diário lido por ela, sem se fazer necessária a troca de capítulos: ambas narrativas se mesclam para que o leitor sinta a quão imersa a protagonista está no diário, sendo impossível separá-lo dela.

Ele narra a trajetória de Luiza, a quem, inicialmente, Helena não sabe quem é. Pela técnica de sumário narrativo, sua história é contada ao leitor como se passasse pelo filtro mental da protagonista, que, através do narrador onisciente, resumisse aquilo que leu. Dessa maneira, a impressão do leitor é a de estar ouvindo o relato de um amigo sobre a trajetória de um terceiro, o que aumenta o tom memorialístico que o Calendas de Março assume.

Memória, política e literatura são os temas centrais da obra de Ivete Nenflidio. É o poder da palavra escrita que a transporta para outra realidade, fazendo com que ela, em uma madrugada, pudesse se esquecer das angústias de seu próprio momento. Por outro lado, a história de Luiza também faz com que Helena, a todo instante, retorne para a própria situação atual do país, já que se torna impossível para a protagonista não enxergar a conexão entre passado e presente. É dessa maneira que a autora estabelece sua mensagem: a de que o Brasil não pode se esquecer de sua história, a fim de não correr, mais uma vez, o risco de perder sua democracia.

Ivete Nenflidio o faz com literariedade suficiente para que o texto diga o que precisa dizer com sensibilidade e emoção, que dão à obra sua atmosfera poética.

Calendas de Março é um romance curto, podendo ser lido em poucas horas, e que se faz necessário especialmente neste momento. Por sua beleza narrativa, provoca, em nós, o mesmo conforto que Helena encontra nas palavras de Luiza. Por sua mensagem de resistência, é um lembrete importante dos perigos de um passado que não pode retornar, mas que cada vez mais procura meios de se fazer, mais uma vez, presente.

Aione Simões é escritora, Bacharel em Letras pela USP

ISBN 978-65-00-28251-1




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